Friday, June 24, 2005

Eu estava lendo um conto de Clarice Lispector que se chama "Devaneio e embriaguez duma rapariga" e achei demais esse trecho: "Ai que quarto suculento! ela se abanava no Brasil. O sol preso pelas persianas tremia na parede como uma guitarra" Isso não é demais? Hahahahaha...
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Wednesday, June 22, 2005

Encontrei este poema na página de um grupo de atores na internet. Acho que ele tem muito a ver com o que as pessoas pensam de quem faz esse tipo de trabalho, e tem muito a ver comigo também. Posso me parecer diferente do que está aí escrito, e eu sou mesmo diferente e também igual, porque não sou um só, acho que não. Sou uma mistura de idéias contrárias, sou um depósito de personalidades, uma oficina de personagens.... ou talvez seja só volúvel demais, corrompido pela volúpia de não ser e ser aqueles todos que sou. Não sei de nada, ou sei. Talvez você saiba... Não sei se isso interessa a alguém, mas quis por e pus aqui pra vocês lerem.

(...)
Sinto uma imensa simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
(...)

Augusto dos Anjos
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Thursday, April 28, 2005

Vêem mais um personagem fútil que criei
Para lhes arrancar sorrisos,
Você não.
Sabe o que sou despido de máscaras
E o que é.

Choro às vezes com alguns sons
De um disco riscado pelos berros
Do público de um antigo festival.

Espelho-me no que há de mais baixo,
Você me cativa.
O homem arranca o próprio sangue lá fora,
Eu encontro lugar seguro em nós.

Quero saber de você sim,
Alguém como no mundo não há.
E então os sonhos são música,
Reações à realidade vazia.

Na poesia os horrores são belos,
E nela construí o meu mundo.
Você o habita, e somos a beleza,
O que faz mutante toda a natureza do lugar.

A loucura disso tudo me torna insano,
E você a fez,
E não sei de mais nada,
Só sei de mim, talvez de mim nem saiba.

Sou fraco e não decido
Se faço o que quero,
Se faço o que querem.
Agora sou o filho de algo que me nega a liberdade
E você também o é.

Somos escravos vagabundos dessa gente,
Abrigamos o amor que a eles é inatingível.
Choramos mesmo, sabe porque?
Porque guardamos presa uma coisa boa
Dentro de nós...
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Sunday, December 05, 2004



Não penso que a arte deva ser encarada como meio de produção de objetos decorativos, mas sim como veículo de expressão de sentimentos diante dos costumes, da vida cotidiana, da política, não precisando ser bela, mas nescessariamente expressiva ao ponto de despertar sentimentos fortes no observador.
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Saturday, December 04, 2004



A vida econômica de um país, seu poder, sua imagem não deveriam ser tão importantes quanto a vida das pessoas que nele vivem, e de todas essas pessoas, sem excessão. Se um governo existe é só para organizar e suprir as nescessidades dos seres humanos que habitam o território governado, mas não é isso o que acontece. Enquanto milhares de pessoas passam fome, o presidente de um país se axalta e promove sua imagem com campanhas que custam rios de dinheiro aos cofres públicos e não cumprem o objetivo divulgado. Pessoas tem uma alma, pessoas sentem e são todas iguais, iguaisinhas: precisam comer pra não passarem fome até secar, agonizar até a morte e virar carniça.
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Sei de tudo o que pensas, e não quero, por sabe-lo, divulgar a tua vida. Digo que tudo aquilo que escrevo e digo é mentira, pois é mentindo que se vive e pensando que se bem inventa.
De todas as músicas, a que ouço é expressiva o bastante para extrair de mim o que aqui você vê. Quando a conheci disse, e não com palavras, que a amava - e ela o soube - e passou então a me tratar com um certo cuidado desnecessário que me tornava fraco e inútil, como um homem comum tem a uma criança. Pensei então em dizer tudo aquilo que sentia, mas a cada instante a coragem era menor. Então me tranquei entre quatro paredes cor de laranja e vi o mundo através do buraco da fechadura de uma porta branca.

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Friday, November 05, 2004

O poema de amor mais bonitinho que já fiz... mas fica só entre a gente.

CAROLINA FLOR

Não, não digas nada.
A tua boca é uma pétala
e o que vem de ti, bem sei,
brota da terra.

O teu corpo tão certo
vem da vida em luz,
brota bem lá do fundo
do que já não tem luz

Não és um girassol,
és bem melhor, eu sei.
Não bastassem as camomilas,
agora és tu, Carolina.

E meus olhos devoram-te ao olhar
E meus olhos te comem sem boca pelo olhar.

Tens o cheiro daquilo que ainda não senti,
tens o gosto da água que não tocou-me a língua.
És a esfinge do tempo em que viverei em paz,
és Carolina, flor e tudo mais.
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VIAJANDO NA GOURMET...

Quando o papagaio canta, os ratos do porão roem que roem a madeira do assoalho, meu chão. E o homem, malvado que só, armou ratoeiras sanguinárias seitas satânicas sedentárias salamandras naquele porão. Mas os ratos Hi-Fi SuperTec's digitais sacaram a parada e planejaram terrorismo. Três dos de olhos vermelhos subiram as escadas com bombas armadas e estouraram sim... Mas isso não vem ao caso quando o que está em pauta é a temperatura do cu da égua, do gato, do jumento que é o homem no cio!!!
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VIAJANDO NA HELLMANN'S...

E então me perguntaram a cor daquele vegetal. Eu disse: veja, e ouvi: não vejo. Então olhei para os discos voadores que brincavam a nossa volta. Abaixei, peguei uma pedra e acertei o primeiro. Devolveu-me uma tijolada na cara e caí no chão com um buraco na testa!!! Mas vê se é coisa de gente civilizada uma atitude dessas!?! Minha tia me dizia para nunca raspar com a colher a jarra do liquidificador para não machucar a massa do bolo, e eu acreditava e ainda acredito. Duvidava de que a mistura pudesse sofrer, pois não era um ser vivo, mas um dia exagerei no fermento e um monte gigantesco saiu do forno andando queném uma montanha ambulante, começou a me perseguir, e só mais tarde entendi que aquele era um alimento necessitado. Construimos então para ele uma casinha de bambú, cuidamos para que não faltasse água nem comida. Ele já era parte da família quando, num dia chuvoso, saiu, inocente que era, no quintal. A chuva o desmanchou todinho e agora, daquele animal de padaria carinhoso, só restaram lembranças em nosso coração.


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Friday, October 29, 2004

É de lama que se fez o homem
E a alma se fez por si só
E então ele não foi como todo o resto
Que nascia, comia, trepava, morria...
Fêz, então - e faz - outras coisas
Coisas essas que lhe dão prazer:
Grunir, tocar um som, falar,
criar, querer, brigar, torturar,
Matar...
E somos reis deste planeta,
Seremos os novos suicidas,
Os velhos homicidas,
A nossa glória sangrenta
A personificação do horror
A não ser que...
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Vamos fugir pras estrelas!
É de lá que vem todo o açúcar
Que nos adoça.

Aqui somos inimigos do rei.
Lá não há rei, não há mais, meu bem.
Aqui há o ódio e lá o amor reina.

A polícia não nos caça
onde seremos irmãos da liberdade
Teremos abelhas-rainha para nosso mel de cada dia

Seremos, então, símbolo augusto da paz
E nossa nobre presença
Será para sempre maluca
Como há de ser tudo por lá.

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Há sempre um tempo no tempo
Que o corpo do homem apodrece
Sua alma cansada, penada, se afunda no chão
E o bruxo do luxo baixando o capucho
Chorando num nicho capacho do lixo
Caprichos não mais voltarão

Já houve um tempo em que o tempo parou de passar
E um tal de Homo sapiens não soube disso aproveitar
Chorando, sorrindo, falando em calar
Pensando em pensar quando o tempo parar de passar
Mas se entre lágrimas você se achar e pensar que está a chorar
Este era o tempo em que o tempo é.

Mutantes - Mutantes E Seus Come- tas No País Dos Baurets
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Eu sei de muita coisa que não vi, e vocês também, eu sei. Não se pode dar uma prova de existência daquilo que é mais verdadeiro, o único jeito é acreditar e acreditar chorando. Este show acontece num estado de emergência e calamidade pública. É um show inacabado, porque lhe falta resposta. Resposta essa que espero que alguém no mundo me dê. É um show em tecnicolor, pra eu ter algum luxo por deus, porque eu preciso. Amém, para todos nós.

Clarice Lispector
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Agora o braço não é mais o braço erguido num grito de gol. Agora o braço é uma linha, um traço, um rastro espelhado e brilhante. E todas as figuras são assim: desenhos de luz, agrupamentos de pontos, de partículas, um quadro de impulsos, um processamento de sinais. E assim - dizem - recontam a vida. Agora retiram de mim a cobertura de carne, escorrem todo o sangue, afinam os ossos em fios luminosos e aí estou pelo salão, pelas casas, pelas cidades, parecida comigo. Um rascunho, uma forma nebulosa feita de luz e sombra como uma estrela. Agora eu sou uma estrela.

Elis Regina

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